terça-feira, 4 de outubro de 2011

Meu avô

Vivi mil vidas sem ter certeza de como. Pode parecer besteira, mas quando lembro daquele velho lembro de mim aos 5, aos 17, aos 30, aos 80. Ele me deu direito ao seu passado e ao meu futuro. No nascimento, herdei seu pé chato, os olhos pequenos, a mirabolância dos sonhos e talvez a vida que lhe enchia os pulmões. Na verdade, eu era ele sem ser. Por isso, ele não podia ser ao mesmo tempo que eu. Herdei também a cara, o tipo físico e ainda assim nem filho sou. Ele era apenas meu avô e isso dá uma saudade. Quando penso, tenho certeza que o laço sanguíneo era o mínimo que nos ligava, faz quase cinco anos que morreu e sinto que ele ainda vê o mundo pelos meus olhos. Definitivamente sou ele, assim como sou o avô do meu avô e o cara que há quase 500 anos atravessou o Atlântico com algum sonho maluco ou uma culpa mortal e um pedaço de papel na mão.