quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Boa noite

Gosto quando você atende o telefone e sabe que sou eu, é um oi que pede minhas unhas na sua coxa e uma devoção para velar teu sono. Admiro a brabeza que se disfarça de doce sempre que encontra meu peito e tenta negar o sono, mas aceita carinhos e uma cara de bobo que escondo no seu despertar. Esse é meu jeito de dizer boa noite estando longe. Uso as palavras como um beijo, minha presença no seu colchão. Desaprendo a sonhar todas as noites se não lhe digo ao menos um dorme bem.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Aos amigos e parentes que não vejo

Estou com saudades suas, precisamos nos encontrar para eu poder devolvê-las. Foi como esquecer um CD: Estou com um disco seu, precisamos nos encontrar para poder devolvê-lo. A saudade é uma posse, propriedade não de quem sente, mas de quem ficou para trás. É um algo que se entrega a pessoa para que ela tenha a obrigação de rever o amigo ou parente, nem que seja para devolver a saudade. Esse é um jogo usual entre os amigos de longa data. Entregam um pedacinho de saudade presa em uma gaiola sempre que se despedem. Junto vai um saco de tempo para alimentar o bichinho. A cada ponteirada do relógio a barriga da saudade cresce e aquela que era apenas um filhote fica um animal grande e feroz. Como pertence ao amigo que ficou no passado, é hora de procurá-lo para devolver. Na verdade, saudade é objeto de empréstimo. Um produto de escambo: "Troca-se saudade por uma presença". Entre amantes, saudades é só uma desculpa para se falar a cada meia hora. Nesses casos esse sentimento toma forma de celulares e pequenos objetos que por um descuido proposital ficou com outra pessoa. Ao invés de dizer: "Seu telefone ficou comigo, preciso devolvê-lo". É melhor dizer: "Estou com saudades suas".

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Não quero sexo

Hoje eu não quero sexo, quero misturar você com brigadeiro. Quero ser os efeitos que ele causa no corpo, um orgasmo gastronômico para a boca, ouvidos e olfato. Se puder, misturo também minha mão com teu seio, o toque com sua pele, teu arrepio com minha boca. Isso é fazer brigadeiro, misturar desejo com seu sim, "me arranca a roupa" com vontade de morder. Fazer brigadeiro é ser o chocolate, é juntar os pecados capitais em luxúria e gula, é querer ser um motivo para o seu prazer.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Palácio do Buriti


O Brasil não tem rei, mas têm palácios – o da Justiça, o do Planalto e outros. A capital do país é palaciana. Ostenta prédios de traços artísticos recheados de gente de todas as grandezas. Gosto do palácio do Buriti, não daquele prédio do governo. Refiro-me a uma obra desconhecida, de um senhor apelidado Buriti e do barracão levantado por ele em Taguatinga.A beleza de Brasília não se resume aos prédios e ruas bem desenhadas, o que é bonito em Brasília é o povo.

O palácio do senhor Buriti era belo, não na arquitetura, mas na gente que freqüentava aquele barraco, lugar que o tempo e os freqüentadores deram o nome de Palácio. No Brasil realmente não tem rei, mas no palácio do Buriti, cavaquinho é majestade e percussão tem título de nobreza. E os majestosos sambistas de outrora e de hoje eram evocados quase todas as noites. No natal cantavam Noel, nas sextas iam de Cartola e o samba que era carioca nascia às margens dos poderes da república e se fazia brasiliense.Brasília foi feita de cariocas, maranhenses, goianos, a junção dos povos brasileiros, obra de engenharia magnífica que faz do Planalto Central o mais brasileiro dos lugares.

Os traços que Brasília seguiu tornaram-na hoje, cidade com maior Índice de Desenvolvimento Humano do país. Humanidade tão desenvolvida que há alguns anos expulsou Buriti do Palácio a murros e pontapés. Derrubaram o barraco alegando ali serem terras públicas.Buriti não toca mais samba, perdeu o cavaquinho e a alegria no despejo, havia feito o palácio por que achava estar construindo em terras da União: Brasília, terra da união dos povos brasileiros. Mal sabia que União era o Estado. Agora sabe pelo menos, que Índice de Desenvolvimento Humano fica no Plano Piloto e que na periferia tem índice de violência humana.

domingo, 2 de novembro de 2008

Sexo e audição

O primeiro sentido a ser afetado no sexo é a audição. A pessoa fica surda. Coisa que só acontece quando há um encontro, não um esbarrão qualquer - um novo big bang causado pelo leve toque de um dedo sobre a pele. Somente em seguida vem o arrepio e já é tarde demais. A surdez se converte em som, em uma música que alguém já chamou de lubrificante. Um contra-baixo pode ser escutado ao longe e e ele toca um jazz ou um blues inédito, aquele som que te invade e te faz querer pular. Você está dentro de um carro, não escuta nem vê a polícia a bater no vidro. Está trancado em um banheiro e não escuta os pedidos do gerente para parar. Você grita na sala de casa enquanto seus pais dormem ao lado e o mundo também ficou surdo. As bocas se mexem sem emitir som algum, a única coisa é aquela música na sua cabeça e você também quer gritar um grito mudo. Abre a boca, enche os pulmões de ar e solta um barulho que não existe. O ouvido rouba a voz e incita o arrepio. O ouvido ensina os corpos a dançar.